Completado cem anos de sua morte, a obra do escritor carioca continua sendo motivos para estudosMachado de Assis é o maior escritor brasileiro de todos os tempos. A sua obra se tornou incontestável e festejada por inúmeros críticos, tal como o renomado americano Harold Bloom. Em seu livro Gênio de 2003, ele inclui Machado na lista dos cem maiores escritores do ocidente, justamente porque em suas palavras: “ele possui os pré-requisitos da genialidade, que são a exuberância, a concisão e a visão irônica, totalmente singular do mundo.” Há cem anos, o escritor carioca falecia, deixando para seu país um legado vasto, muito estudado e analisado. Uma questão, contudo, sempre foi contraditório, o modo como Machado de Assis retratava o negro, e a escravatura que vigorava no país, uma vez que ele viveu durante esse período. Tendo nascido mulato, o que pode ser evidenciado pelos retratos que existem do autor, torna ainda mais interessante saber o que o escritor pensava sobre a escravidão no Brasil, e como isso foi trabalhado, ou analisado em sua obra. Muitos críticos e autores já escreveram sobre o assunto, tais como Robert Schwarz, John Gledson e Sidney Chalhoub. Serão analisados alguns contos, entre eles, principalmente, Pai contra mãe e O Caso da Vara, onde a narrativa de Machado explora mais sobre o questão do negro, visto que, é nas entrelinhas, em que se pode encontrar a maioria de suas opiniões sobre o tema abordado.
O que torna Machado não um defensor explícito da questão da escravatura no país, e sim um crítico – a partir de sua literatura, e não como homem público – da difícil e complicada situação dos escravos é o modo como menciona e apresenta as relações entre o negro e o branco no devido contexto social. Através de sua refinada característica de possuir uma articulada ironia e de diversos efeitos alegóricos como a loucura, inúmeras vozes ou o riso como zombaria e paródia, o autor carioca ataca fortemente a classe social opressora, ridicularizando-a e tornando-a alvo das suas mais severas e cínicas críticas. Entretanto, quando é trabalhado o lado excluído, no caso o negro, Machado abre uma exceção, um caminho alternativo do seu estilo clássico e apresenta a escravidão de forma mais expressa, despida das alegorias que utiliza para debochar da "boa" sociedade. Um exemplo concreto disso é vista no seu conto Pai contra Mãe.
“A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro o pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras." (ASSIS: 2003, p.105)
Nesse excerto do conto Pai contra mãe, a opinião de Machado não aparece mais nas entrelinhas. É claro que não está totalmente exposta, mas ele muda até na forma como utiliza a sua linguagem: torna se completamente objetiva e descritiva, escrevendo quase como se fosse um texto jornalístico, entregando os fatos e não emitindo nenhuma opinião, apenas descrevendo de forma crua o que acontecia. No decorrer de toda a narrativa, o autor continua a apontar os efeitos desumanos desse sistema observados nas incoerências do ofício de caçador de escravos fugidos, representado na figura de Cândido Neves.
Tal acontecimento é apresentado no conto, quando esse Cândido Neves, um dos protagonistas, empregado no baixo serviço de capturar escravos por não se adequar a outros tipos de emprego ou profissão, se vê numa situação bastante delicada: prender ou não, uma escrava desertora, grávida, que implora para não ser devolvida ao seu dono sob o pretexto de, pela rigorosa punição que receberia perder a filha que estava esperando. Candinho, como era chamado pelos seus conhecidos mais íntimos, necessitava muito do dinheiro da recompensa, caso não conseguisse sustento teria que entregar o seu filho para a Roda dos enjeitados (uma espécie de orfanato), justamente pelo estado de pobreza que atravessava. Estabelece-se então o conflito ético. E no desfecho, o mais previsível acontece, principalmente para aquele contexto e sociedade. O personagem entrega a escrava ao seu senhor, e essa, em seguida vem a abortar. Cândido Neves não tem nenhum remorso pelo ato, pois era a vida e o destino do seu filho que estavam em jogo, além do mais, tratava-se apenas de uma escrava fujona e seu filho que não nascera. São apenas essas as menções e reflexões do personagem principal, mas é nesse momento que se encontra a análise da sociedade de regime escravo por Machado. “Era apenas uma escrava fujona”, é na crueza do pensamento do caçador de humanos que se encontra uma crítica implícita à todo o sistema que imperava na época.
O historiador Sidney Chalhoub defende em seu livro “Machado de Assis historiador” que essa visão crítica tenha nascido graças ao tempo em que o escritor passou no gabinete de funcionário público. Como ele diz em seu livro, “O Machado romancista e o Machado funcionário público compartilhavam da mesma ideologia: ambos aprenderam a não esperar nada de bom da classe senhorial escravista da sociedade brasileira do século 19”. Na verdade, Machado trabalhou como funcionário público ao mesmo tempo em que os grandes debates sociais construíam uma lei que acabaria com a escravidão. O autor deixa o público perceber a respeito do estado de coisas que nos está sendo descrito, podemos descobrir "a visão machadiana da História do Brasil no século 19" , segundo Chalhoub. Para ele a História desse século é a história da crise do paternalismo, que se manifesta de modo mais contundente em 1871, quando foi discutida e promulgada a Lei do Ventre Livre. Na mesma época, Machado era chefe da segunda seção da Diretoria da Agricultura do Ministério da Agricultura, responsável por dar pareceres acerca da aplicação da Lei, cuja interpretação era muitas vezes ambígua. O romancista sempre procurou explicar a regra como "lei de liberdade", defendendo alforrias nos processos que opunham senhor e escravo. É o que revela Chalhoub, a partir de documentos encontrados em exaustiva pesquisa.
No conto “O Caso da Vara”, Machado também é mais explícito em sua posição, a narrativa conta a história da fuga de um seminarista, chamado Damião. Ele vai para a casa de uma senhora, esposa do seu falecido padrinho, e lá acaba se tornando seu protegido. Acontece que o jovem Damião depende da tia, para safá-lo do possível grande castigo que o seu pai daria, quando soubesse de sua fuga. Enquanto isso, sinhá Rita, a sua madrinha, pune uma jovem escrava por ela não completar um trabalho, Lucrecia, era o nome dela. Ela e Damião haviam ficado bem amigos e um dia ele prometera “apadrinha-la”. Contudo, ele não interveio no duro castigo, pois não queria perder o apoio de sua tia, e passou a vara para a concretização do ato, enquanto ouvia gritos de súplica da escrava: “(...) Sinhá Rita, com a cara em fogo e os olhos esbugalhados, instava pela vara, sem largar a negrinha, agora presa de um acesso de tosse. Damião sentiu-se compungido; mas ele precisava tanto sair do seminário! Chegou à marquesa, pegou na vara e entregou-a a Sinhá Rita (...)’’. O trecho mostra, além de Machado abordando a questão da escravidão, os maus tratos a que os negros eram submetidos, a partir da característica egoísta e cruel do ser humano – traço muito forte no escritor carioca. Veja, o simples ato de se passar a vara para que a surra ocorra é uma metáfora crítica para as pessoas da época que não tinha coragem pra se levantar contra o regime escravocata. Também pode ser encarado como a hipocrisia e a covardia do ser humano.
O conto “Pai Contra a mãe” foi a base para o filme “Quanto vale ou é por quilo”, que mostra uma analogia entre o antigo comércio de escravos e a atual exploração da miséria pelo falso marketing social, que forma uma solidariedade de mentira. No longa também há dois eventos acontecendo simultaneamente, que são o cerne do conto “Pai Contra a Mãe”. No século XVII um capitão de Mato vai atrás de uma escrava grávida foragida em busca de dinheiro. Ao mesmo tempo, no século XX, um homem de origem humilde aceita matar uma mulher grávida por uma quantia que ajudaria ele, e a mulher grávida a criar o filho. De certa forma, é possível notar que não houve muita diferença entre as realidades – mesmo tendo passado muitos anos. Confere a afirmação de Chalhoub: Cada vez mais Machado pode ser lido, também, como um grande historiador. A obra Machadiana, complexa e abrangente em vários sentidos, é também crítica da sociedade escravista da época. Porém, não como o poeta Castro Alves, com suas hipérboles grandiosas (numa bela redundância mesmo). A evidência maior da sua crítica pode ser encontrada em dois grandes contos, "Pai Contra Mãe" e "O Caso da Vara", aqui analisados. E mesmo assim, não são evidentes o suficiente. Pode-se observar sua análise no modo como narra a história: diretamente, objetivamente e sinceramente. Machado não ficou em silêncio durante a a escravidão, usou a literatura nas entrelinhas para criticar o modo desumano que a sociedade brasileira se comportava na época. E isso só aumenta o prestígio de um escritor já tão celebrado, tanto que suas obras são estudadas e analisadas até hoje.