segunda-feira, 20 de abril de 2009

A Ópera do Sadismo




O COZINHEIRO, O LADRÃO, SUA MULHER E SEU AMANTE

Em uma tarde chuvosa, quando eu arrecém havia me mudado para Porto Alegre e não tinha conta em locadoras, resolvi baixar um filme. Foi uma época cheia de novidades, eu realmente queria me inovar tanto social quanto culturalmente. Então, estava passando um documentário no Multishow sobre a Helen Mirren, que na época comentava seu papel no filme “A Rainha”. Em certo momento apareceram trechos dos filmes que ela havia feito. Todos passaram pelos meus olhos com muita indiferença, com exceção de um plano que mostrava Helen segurando uma arma direcionada para a câmera. Achei a cena genial, com um cenário que nunca tinha visto antes. Resolvi pesquisar sobre o filme, do qual só me lembrava ter um nome muito longo e estranho.

Após alguns dias de download (ufa... tudo que eu queria é que valesse a pena) fui prontamente assistir ao filme. Logo de início fui surpreendido por uma voz muito fina - aquelas sopranino a lá Coral do Vaticano – e uma cena de espancamento no estacionamento que logo de início me prendeu na poltrona. A medida que o filme passava, ele ia me lembrando uma ópera, divida em vários atos e com uma dose de teatralidade que fazia do filme uma verdadeira obra de arte, dirigida pelo esquisitão Peter Greenaway.



A história é relativamente simples, mas nem por isso não deixa de ser perturbadora. Ela consiste no envolvimento amoroso de Georgina –interpretada pela brilhante e (por incrível que pareça) sensual Helen Mirren – que sofre repressões de seu marido, Albert Spica –Michael Gambon, mais conhecido por ser o atual interprete de Dumbledore- , um arrogante fornecedor da alimentos a um dos mais caros restaurantes da cidade. Esta mulher passa a se relacionar com um judeu, Michael,- Alan Howard- nos fundos do restaurante, tudo com o aval do cozinheiro-chefe da casa, Richard Borst –interpretado por Richard Bohringer. A medida que a trama se desenvolve e o segredo vai ficando cada vez mais exposto, a violência e o ritmo do filme aceleram até o clímax, um dos finais mais impressionantes que uma película já registrou.

Um dos principais aspectos do filme é a dualidade. O restaurante freqüentado pela finesse e a cozinha onde as mais tristes criaturas transformam alimentos em decomposição em delícias culinárias. Como o amor se desenvolve no meio da sujeira, e como as pessoas são indiferentes a ele, embebidas em suas vidas ébrias de tristeza. Como a cultura dos grandes salões contrasta com o canto agudo e desafinado de uma criança que apela por algum momento de descanso e de vida fora da cozinha. Todas estas dualidades são trabalhadas por meio de soluções geniais de direção, edição, montagem e fotografia. A direção de arte não deixa dúvidas das qualidades visuais do filme. O filme tem um contraste de cores dignas de comparações com filmes mestres neste aspecto, como Moulin Rouge e Suspiria.





O filme não possui na violência gráfica seu aspecto mais chocante, mas sim na psicológica. As qualidades mais singulares do ser humano são colocadas em personagens estereotipados (o que neste caso, funciona muito bem). Seja pela vulgaridade, grosseria e (desculpe pela palavra porca) porquice de Spica ou pela classe e erudicidade de Michael, o filme registra marcas muito fortes em seus componentes, sendo que eles praticamente não sofrem viradas em seus comportamentos. Isto é feito exatamente para destacar a transformação de uma personagem, Georgina, que muda completamente sua índole ao longo do filme.

O longa é uma obra prima do cinema, mas que sem dúvida deve despertar o ódio em muitos dos que o vêem (e consequentemente contra quem elogia este filme, no caso, eu...). É um filme que não permite que o espectador fique em cima do muro devido a sua contundência e visualidade, além da crueldade, que é inegável em um filme que tem o banquete mais estranho da história. Considero ele um dos dez melhores filmes que eu já vi, e com certeza no momento que abrir uma brecha no orçamento, vou atrela-lo a minha coleção de DVD´s. Enquanto isso, download nele e espero que apreciem o longa.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Conjunto Vazio






O filme “The Doors” (1991), de Oliver Stone, mostra o surgimento, ascensão e queda de uma das mais importantes bandas de rock’n roll americano: The Doors. O foco narrativo do filme, porém, está mais no vocalista da banda, Jim Morrison, sendo que referencial de tempo no longa-metragem tempo que ele permaneceu no grupo. Portanto, a história do grupo é um contexto da vida de Jim, um recorte utilizado pelo diretor para que ele mostrasse a sua visão deste personagem. O filme exibe o lado conflituoso e mórbido do artista, com sua paixão pelas drogas e pela morte, sendo uma espécie de “marionete-titeriteiro”, ou seja, usado pela sociedade ao mesmo tempo em que manipula uma parte dela.
Primeiramente, o contexto do filme é o final dos anos sessenta, mostrando os movimentos de uma América recheada de jovens que buscam na música e nas drogas as respostas para os seus conflitos. Los Angeles, cidade onde passa a maior parte do filme, é retratada essencialmente como um antro do movimento hippie e do rock que viria a ser o mais famosos do país. O contexto não mostra luta de classes ou qualquer outra manifestação de revoltas que mereça destaque. Muito pelo contrário, o conflito físico ocorre no outro lado do mar, no Vietnã, fato destacado superficialmente na obra. Mas as pessoas estão passando por um momento interno conturbado, devido a tanta informação chegar até eles e fatos desastrosos estarem acontecendo. Esta acaba sendo a principal influencia do contexto na construção da trama.
No princípio do filme, o protagonista é mostrado como um poeta marginal, extremamente dedicado a sua arte, como um apaixonado pela vida e crente na veradicidade do amor. O Jim Morrison deste momento busca apenas expressar-se em um mundo que move-se em direções diametralmente opostas: de um lado, há as pessoas engajadas com causas sociais, com a guerra que leva tantos jovens a pontos insólitos da Ásia para lá aprenderem como sobreviver em um ambiente hostil. Do outro lado, está a parte alienada que prefere a fuga à luta, quase sempre com o uso de entorpecentes. O curioso é notar que esta divisão não ocorre em indivíduos distintos: os antagonismos estão presentes na própria pessoa. O personagem de Morrison é mostrado exatamente assim: como um desiludido com a sociedade, que vê todos como escravos, seguindo uma linha contínua, a qual todos sabem no que está amarrada. Porém, ele também busca a fuga, ora por uso excessivo de álcool e drogas, e outro, pela sua música.



O conflito é o principal tema do filme, mais do que qualquer lição moral ou até mesmo biográfica. Morrison possui uma relação delicada com a fama: ele a ama e a odeia ao mesmo tempo, e por isso o defino como “marionete-titeriteiro”. Jim é retratado como um artista problemático, até mesmo tímido em um momento inicial, mas que com o passar do tempo acaba gostando de estar presente na mídia. Porém, ele desaprova a sujeição às regras técnicas ou morais, como na cena em que rejeita a sugestão de um produtor do programa Ed Sullivan para alterar a letra de “Light my Fire”. O produtor gostaria que Jim cantasse “Girl, we couldn’t get much better” (garota, nós não poderíamos estar melhor), e não o original que é “Girl, we couldn’t get much hire” (garota, nós não poderíamos estar mais chapados). Jim acaba cantando a versão original e é expulso do programa. Ele ama a fama pelos motivos de prazer óbvios que ela acarreta, como mulheres, dinheiro e drogas. Mas seu lado poético e moral o fazem capaz de resistir à adesão total deste sistema.
Para fugir do sistema, Jim acaba usando os recursos de fuga anteriormente citados, como drogas e álcool. O uso desta substância faz parecer que ele está em um permanente transe dos sentidos. Notamos influências da psicanálise nestes momentos do filme. O ID acaba submetendo o Ego, o que acaba desencadeando uma manifestação animalesca dos instintos animais do personagem, principalmente na forma de desejo sexual. Seguindo por outro viés freudiano, vemos a manifestação do inconsciente, que revela desejos e repressões infantis. O inconsciente acaba sendo “libertado” pelos entorpecentes e é externalizado, algumas vezes de forma abrupta e violenta, mas também como expressão criativa e poética.
O ambiente de devaneio é constantemente confrontado com o de realidade. A realidade para Jim é diferente do que para seus colegas de banda. Ela é condicionada pelo uso de drogas e pela poesia, enquanto os demais buscam ser um tripé racional e ponderado, sendo que até mesmo as drogas são para eles mais um catalisador para a índole criativa do que um dispositivo de desvio do real. Jim usa as drogas como meio criativo, mas esta não é usada para fins engajados socialmente ou moralmente. As poesias são apenas meios de expressar um interior conturbado, antagônico, esporadicamente revoltado com questões políticas, mas predominantemente permeado pela manifestação sentimental fútil. Também há o misticismo pagão (na forma do encontro do músico com uma bruxa) que acaba “naturalizando” e até mesmo “barbarizando” (pelo fato de ele passar a beber sangue para alcançar o orgasmo) a vida do artista. Mas estes são elementos de devaneio e expressão para Morrison, um momento em que a realidade parece onírica e que a poesia erótica e mística acaba fluindo quase que espontaneamente.
Há um outro conflito que é trabalhado de modo interessantíssimo no filme, tendo muito a ver com a psicanálise e com o espiritismo. Quando Morrison é mostrado quando garoto em um flashback logo no início do filme, ele presencia um acidente de carro em que um indígena é morto. Este fato poderia apenas ser visto do viés psicanalítico como um fato traumático, porém Jim mantém contato com o espírito do índio e até mesmo incorpora o mesmo. O músico acaba sendo reconhecido como um xamã, que é o curandeiro espiritual de diversas tribos autóctones, pois ele teria a possibilidade de modificar o espírito doentio e mecânico das pessoas. Através deste fato, o filme exige um pouco de criatividade e interpretação por parte do espectador: será que Morrison está em devaneio por causa do uso de drogas ou realmente há um espírito intervindo em seu corpo? As interpretações são pessoais, porém referências, principalmente no final (última cena, quando a mulher do cantor acha seu corpo no banheiro; momentos antes, no corredor, ela vê um índio nu saindo de lá.) acabam pendendo para uma conclusão de que realmente houve uma encarnação.
Cada lado da personalidade de Morrison é exposto, porém a parte marginal se sobrepõe pelo olhar viciado do espectador, mais interessado na parte delinqüente do que criativa do artista. O próprio público retratado no filme busca mais as atitudes do que a essência musical de Morrison. Isto também é causa do conflito interno do músico: ele não deseja apenas ser consumido, mas, sobretudo, busca que sua obra seja entendida como arte. As pessoas o vêem como um símbolo sexual, um rebelde, um símbolo do consumismo, mas esquecem que a banda surgiu, pelo menos pela parte de Morrison, como um meio de expressão artística. Jim não despreza totalmente o público, mas busca incentiva-los a transcenderem seus limites morais e legais, passando a promover orgias e performances com forte conotação rebelde.



Jim tem uma morbidez expressada fortemente pelo seu apreço pela morte. Não que ele odeie a vida, mas ele a curte como se cada dia fosse o último. As passagens que falam sobre morte estão muito presentes no filme. Esta seria a solução definitiva para todos os problemas da existência humana, segundo o personagem retratado no filme. Jim, neste momento, parece um escritor romântico do século XIX, sobretudo os do conhecido “Mal do Século”. Ele vê na morte inclusive a solução para o amor, quando ele sugere para sua mulher que para serem eternamente felizes eles devem morrer juntos. Ele não se mostra crente em vidas póstumas, mostra-se inclusive alheio as questões religiosas: para Jim, a morte simplesmente é o fim.
Portanto, ao analisar o filme devemos levar em conta a questão do conflito, e ao analisar o protagonista temos que buscar, inicialmente, entender os antagonismos do mesmo separadamente. Primeiro, definimo-los, e depois para interpretá-los de modo correto os coincidimos. É impossível tentar entender um personagem tão complexo apenas pelo simples rótulo de drogado alucinado: muitos fatos ocorrem no decorrer da história para aceitarmos tal definição. Do poeta marginal, crente no amor, que aparece no início da trama, pouco sobra ao seu final. Ele vai se desintegrando a medida que usa entorpecentes e se desilude com a sua vida e com o mundo. O filme exibe muitos elementos que permitem ultrapassar a interpretação superficial, e creio que apenas uma apuração destas fará o espectador capturar a verdadeira alma de Jim Morrison segundo Oliver Stone.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Machado e a questão escravagista

Completado cem anos de sua morte, a obra do escritor carioca continua sendo motivos para estudos

Machado de Assis é o maior escritor brasileiro de todos os tempos. A sua obra se tornou incontestável e festejada por inúmeros críticos, tal como o renomado americano Harold Bloom. Em seu livro Gênio de 2003, ele inclui Machado na lista dos cem maiores escritores do ocidente, justamente porque em suas palavras: “ele possui os pré-requisitos da genialidade, que são a exuberância, a concisão e a visão irônica, totalmente singular do mundo.” Há cem anos, o escritor carioca falecia, deixando para seu país um legado vasto, muito estudado e analisado. Uma questão, contudo, sempre foi contraditório, o modo como Machado de Assis retratava o negro, e a escravatura que vigorava no país, uma vez que ele viveu durante esse período. Tendo nascido mulato, o que pode ser evidenciado pelos retratos que existem do autor, torna ainda mais interessante saber o que o escritor pensava sobre a escravidão no Brasil, e como isso foi trabalhado, ou analisado em sua obra. Muitos críticos e autores já escreveram sobre o assunto, tais como Robert Schwarz, John Gledson e Sidney Chalhoub. Serão analisados alguns contos, entre eles, principalmente, Pai contra mãe e O Caso da Vara, onde a narrativa de Machado explora mais sobre o questão do negro, visto que, é nas entrelinhas, em que se pode encontrar a maioria de suas opiniões sobre o tema abordado.

O que torna Machado não um defensor explícito da questão da escravatura no país, e sim um crítico – a partir de sua literatura, e não como homem público – da difícil e complicada situação dos escravos é o modo como menciona e apresenta as relações entre o negro e o branco no devido contexto social. Através de sua refinada característica de possuir uma articulada ironia e de diversos efeitos alegóricos como a loucura, inúmeras vozes ou o riso como zombaria e paródia, o autor carioca ataca fortemente a classe social opressora, ridicularizando-a e tornando-a alvo das suas mais severas e cínicas críticas. Entretanto, quando é trabalhado o lado excluído, no caso o negro, Machado abre uma exceção, um caminho alternativo do seu estilo clássico e apresenta a escravidão de forma mais expressa, despida das alegorias que utiliza para debochar da "boa" sociedade. Um exemplo concreto disso é vista no seu conto Pai contra Mãe.


“A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro o pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras." (ASSIS: 2003, p.105)


Nesse excerto do conto Pai contra mãe, a opinião de Machado não aparece mais nas entrelinhas. É claro que não está totalmente exposta, mas ele muda até na forma como utiliza a sua linguagem: torna se completamente objetiva e descritiva, escrevendo quase como se fosse um texto jornalístico, entregando os fatos e não emitindo nenhuma opinião, apenas descrevendo de forma crua o que acontecia. No decorrer de toda a narrativa, o autor continua a apontar os efeitos desumanos desse sistema observados nas incoerências do ofício de caçador de escravos fugidos, representado na figura de Cândido Neves.

Tal acontecimento é apresentado no conto, quando esse Cândido Neves, um dos protagonistas, empregado no baixo serviço de capturar escravos por não se adequar a outros tipos de emprego ou profissão, se vê numa situação bastante delicada: prender ou não, uma escrava desertora, grávida, que implora para não ser devolvida ao seu dono sob o pretexto de, pela rigorosa punição que receberia perder a filha que estava esperando. Candinho, como era chamado pelos seus conhecidos mais íntimos, necessitava muito do dinheiro da recompensa, caso não conseguisse sustento teria que entregar o seu filho para a Roda dos enjeitados (uma espécie de orfanato), justamente pelo estado de pobreza que atravessava. Estabelece-se então o conflito ético. E no desfecho, o mais previsível acontece, principalmente para aquele contexto e sociedade. O personagem entrega a escrava ao seu senhor, e essa, em seguida vem a abortar. Cândido Neves não tem nenhum remorso pelo ato, pois era a vida e o destino do seu filho que estavam em jogo, além do mais, tratava-se apenas de uma escrava fujona e seu filho que não nascera. São apenas essas as menções e reflexões do personagem principal, mas é nesse momento que se encontra a análise da sociedade de regime escravo por Machado. “Era apenas uma escrava fujona”, é na crueza do pensamento do caçador de humanos que se encontra uma crítica implícita à todo o sistema que imperava na época.

O historiador Sidney Chalhoub defende em seu livro “Machado de Assis historiador” que essa visão crítica tenha nascido graças ao tempo em que o escritor passou no gabinete de funcionário público. Como ele diz em seu livro, “O Machado romancista e o Machado funcionário público compartilhavam da mesma ideologia: ambos aprenderam a não esperar nada de bom da classe senhorial escravista da sociedade brasileira do século 19”. Na verdade, Machado trabalhou como funcionário público ao mesmo tempo em que os grandes debates sociais construíam uma lei que acabaria com a escravidão. O autor deixa o público perceber a respeito do estado de coisas que nos está sendo descrito, podemos descobrir "a visão machadiana da História do Brasil no século 19" , segundo Chalhoub. Para ele a História desse século é a história da crise do paternalismo, que se manifesta de modo mais contundente em 1871, quando foi discutida e promulgada a Lei do Ventre Livre. Na mesma época, Machado era chefe da segunda seção da Diretoria da Agricultura do Ministério da Agricultura, responsável por dar pareceres acerca da aplicação da Lei, cuja interpretação era muitas vezes ambígua. O romancista sempre procurou explicar a regra como "lei de liberdade", defendendo alforrias nos processos que opunham senhor e escravo. É o que revela Chalhoub, a partir de documentos encontrados em exaustiva pesquisa.

No conto “O Caso da Vara”, Machado também é mais explícito em sua posição, a narrativa conta a história da fuga de um seminarista, chamado Damião. Ele vai para a casa de uma senhora, esposa do seu falecido padrinho, e lá acaba se tornando seu protegido. Acontece que o jovem Damião depende da tia, para safá-lo do possível grande castigo que o seu pai daria, quando soubesse de sua fuga. Enquanto isso, sinhá Rita, a sua madrinha, pune uma jovem escrava por ela não completar um trabalho, Lucrecia, era o nome dela. Ela e Damião haviam ficado bem amigos e um dia ele prometera “apadrinha-la”. Contudo, ele não interveio no duro castigo, pois não queria perder o apoio de sua tia, e passou a vara para a concretização do ato, enquanto ouvia gritos de súplica da escrava: “(...) Sinhá Rita, com a cara em fogo e os olhos esbugalhados, instava pela vara, sem largar a negrinha, agora presa de um acesso de tosse. Damião sentiu-se compungido; mas ele precisava tanto sair do seminário! Chegou à marquesa, pegou na vara e entregou-a a Sinhá Rita (...)’’. O trecho mostra, além de Machado abordando a questão da escravidão, os maus tratos a que os negros eram submetidos, a partir da característica egoísta e cruel do ser humano – traço muito forte no escritor carioca. Veja, o simples ato de se passar a vara para que a surra ocorra é uma metáfora crítica para as pessoas da época que não tinha coragem pra se levantar contra o regime escravocata. Também pode ser encarado como a hipocrisia e a covardia do ser humano.

O conto “Pai Contra a mãe” foi a base para o filme “Quanto vale ou é por quilo”, que mostra uma analogia entre o antigo comércio de escravos e a atual exploração da miséria pelo falso marketing social, que forma uma solidariedade de mentira. No longa também há dois eventos acontecendo simultaneamente, que são o cerne do conto “Pai Contra a Mãe”. No século XVII um capitão de Mato vai atrás de uma escrava grávida foragida em busca de dinheiro. Ao mesmo tempo, no século XX, um homem de origem humilde aceita matar uma mulher grávida por uma quantia que ajudaria ele, e a mulher grávida a criar o filho. De certa forma, é possível notar que não houve muita diferença entre as realidades – mesmo tendo passado muitos anos. Confere a afirmação de Chalhoub: Cada vez mais Machado pode ser lido, também, como um grande historiador. A obra Machadiana, complexa e abrangente em vários sentidos, é também crítica da sociedade escravista da época. Porém, não como o poeta Castro Alves, com suas hipérboles grandiosas (numa bela redundância mesmo). A evidência maior da sua crítica pode ser encontrada em dois grandes contos, "Pai Contra Mãe" e "O Caso da Vara", aqui analisados. E mesmo assim, não são evidentes o suficiente. Pode-se observar sua análise no modo como narra a história: diretamente, objetivamente e sinceramente. Machado não ficou em silêncio durante a a escravidão, usou a literatura nas entrelinhas para criticar o modo desumano que a sociedade brasileira se comportava na época. E isso só aumenta o prestígio de um escritor já tão celebrado, tanto que suas obras são estudadas e analisadas até hoje.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

FESTIM DIABÓLICO





O filme “Festim Diabólico” (Rope), de 1948, dirigido por Alfred Hitchcock, é um thriller emocionante, recheado de suspense e de diálogos instigantes, apresentando a história de dois jovens (Brandon e Phillip) que cometem um assassinato e resolvem dar uma festa convidando os amigos e pais da vítima, que está escondida dentro de um baú. Mas um dos convidados, um antigo professor (Ruppert, interpretado pelo inesquecível James Stewart) dos assassinos acaba desconfiando de algo, e acaba desembocando em um dos mais emocionantes finais da história do cinema.

O filme segue uma narrativa linear, e se passa em tempo igual tanto em termos cronológicos quanto narrativos, filmado praticamente todo em plano-seqüência (com exceção de um corte, que dá início efetivo a narrativa). Como o filme dura 80 minutos, é exatamente este o espaço de tempo transcorrido nos acontecimentos. Poucos filmes conseguiram realizar tal feito com tanto apreço, o que torna o desenvolvimento da trama ainda mais interessante.

O filme se passa basicamente em um único ambiente, o apartamento dos assassinos. Isso acabou exigindo dos personagens uma atração muito grande para que o espectador não acabasse enjoando do filme. Mas os diálogos são muito bem escritos e a atmosfera de suspense única que foi criada por Hitchcock acaba tornando esta idéia inusitada muito apropriada ao enredo.

A apresentação das personagens ocorre nos primeiros vinte minutos de filme, com a cena inicial mostrando o assassinato de David por Brandon e Phillip, dois ex-colegas seus. O homicídio é realizado com uma corda, que passa a ser um dos objetos que guia o filme. Após esta cena, Brandon e Phillip colocam o cadáver dentro de um baú, e resolvem dar um jantar sobre este, convidando os pais de David, sua namorada Janet e o ex-namorado dela, Kenneth. Mais tarde, finalizando as apresentações, acaba chegando o antigo professor de colégio de Brandon, Ruppert, especialista em filosofia e com teorias bastante peculiares a respeito de homicídios.

A confrontação se dá por meio de um suspense instigante, no qual a cada momento surge algum elemento que evidencie que algo há de errado com os donos da festa, especialmente na medida em que se desenvolvem os rumores sobre o desaparecimento de David. Um dos principais fatores que delatam os jovens é o nervosismo de Phillip, sendo o alvo de desconfianças por parte de Ruppert. A corda também aparece em momentos estratégicos do filme, cumprindo seu papel de objeto central da história.

O assassinato tem como motivo as idéias baseadas no super-humano de Nietsche, que pressupõe a supremacia do intelecto superior em relação ao inferior. Ruppert era um pregador de tais idéias, e Brandon acreditou ter cometido o assassinato perfeito, e isso o confirmou como ser superior. Porém, Brandon fez uma interpretação errônea das idéias de seu mestre, e acabou sendo instigado por seu erro a cometer homicídio. A trama assim se desenrola até o final supreendente, em que o limite da interpretação humana é colocada em xeque e as convicções de um homem acabam se mostrando insuficientes para aceitar a verdade e justificar seus atos.

O interessante é perceber como os elementos da narrativa acabam se juntando em um momento e em um objeto, a corda. A história não tem narrador, e as diversas tramas paralelas são desenvolvidas para acabar dando um suspense à história principal, que é a do assassinato. O filme é muito interessante por este aspecto também: todas as outras tramas, como o romance de Kenneth e Janet, ficam por conta do julgamento do espectador, enquanto apenas o caso do assassinato é totalmente desenvolvido pelo diretor, concluindo assim uma de suas obras mais magníficas e com a narrativa mais interessante de todas já feitas por ele.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Touro Indomável

Tudo começou em 1974 durante as gravações do Poderoso Chefão: Parte II, no qual Robert De Niro interpretava Vitor Corleone, líder da família mafiosa, quando jovem. Durante as filmagens, o ator começou a ler a biografia de Jake La Motta, um famoso boxeador, conhecido pela sua vida conturbada, repleta de conflitos e se fascinou pela história. A partir disso, De Niro resolveu que convenceria o companheiro, Scorcease, a fazer o filme. Quatro anos mais tarde, depois de escapar de uma overdose de cocaína, o diretor foi aconselhado pelo amigo a abandonar as drogas e a fazer o filme sobre boxe. “Mas eu não sei nada sobre boxe”, teria respondido o cineasta. Mesmo não conhecendo muito o esporte, o diretor acabou cedendo as pressões de De niro, e realizou o filme, que acabou se tornando um dos melhores de sua carreira.


Talvez por não ter o conhecimento especializado, Scorcease tenha feito um filme tão envolvente, visto que, acima do boxe, o tema crucial de Touro Indomável é justamente a personalidade fragmentada e explosiva de um homem que não sabe lidar com os seus problemas. Aqui é possível traçar um parâmetro com o momento em que o diretor vivia (as drogas e a dificuldade de abandoná-las), além do seu conhecido temperamento natural se assemelhar ao de La Motta. Podemos observar esse misto de personalidades ao contemplar a primeira cena do filme, onde o personagem de De Niro se aquece no ringue, antes de uma luta, ao som de uma ópera do compositor italiano, Pietro Mascagni – escolhido a dedo por Scorcease para fornecer a trilha sonora do filme. A cena nos apresenta todo o contraste do lutador, tão natural no ringue: seus socos voam no ar, a cabeça baixa, a posição de ataque, os pequenos pulos de aquecimento, combinando perfeitamente com a música, como se ela embalasse seus golpes, clamando os passos pesados de campeão. Um bailarino pronto para o espetáculo, no qual o ringue é o palco onde ele se apresenta e que parece ser o seu habitat. Em contraste com o preto e branco exuberante em que o cineasta resolveu filmar Touro Indomável, as palavras “Racing Bull” aparecem em vermelho, logo no início da cena. O PB foi um recurso que se mostrou muito útil para o filme, Scorcease o escolheu justamente porque seria um diferencial dos outros inúmeros filmes de boxe, que surgiam na época, embalados pelo fenômeno Rocky.
Mas ao contrário do filme de Stallone, Touro Indomável conta a história da ascensão e queda de um boxeador que sempre lutou por ele mesmo, reconhecimento e dinheiro. Diferentemente do personagem Rocky, que almejava provar algo, e embevecer o ego americano com a história clichê do campeão que consegue superar os obstáculos. No filme de Scorcease, os obstáculos são os grandes atrativos. Não somos convidados a gostar de La Motta, ao contrário, na maior parte do tempo temos raiva, abominamos os seus atos, ficamos angustiados com as suas explosões sem sentido. São essas ações que despertam o interesse do público, e é nessa parte que De niro rouba a cena, o ator que passou algum tempo tendo aulas de boxe com o próprio La Motta, realmente dá um banho de atuação. Até o modo como ele fala é bem apresentado, o sotaque, as gírias da época, o modo de andar, e de se locomover no ringue, como o verdadeiro boxeador. São as pequenas sutilezas da atuação que mostram o grande trabalho desse ator. Contudo o que mais chama a atenção é a sua transformação, De Niro engordou 25 quilos para fazer o papel do La Motta velho, uma das primeiras grandes modificações de um artista para interpretar um papel. Não foi à toa que ganhou o Oscar de melhor ator naquele ano, mérito da academia que reconheceu o seu talento. Joe Pesci como coadjuvante também está soberbo, irmão de La Motta, ele serve como consciência do protagonista, mas não tem sucesso nas suas investidas. O momento da grande briga com o irmão é uma das grandes rupturas do longa, a partir dali, observamos a decadência de La Motta, que depois abandona as lutas, e perde a mulher. Mais tarde ele parece encontrar a redenção no entretenimento, virando um apresentador, recitando textos consagrados, velho, gordo, sozinho, mas satisfeito. Aliás, um dos grandes temas de Scorcease é justamente a questão da redenção, seus personagens parecem de certa forma, sempre buscar um meio de exilar seus pecados.




Utilizando-se de cortes rápidos, principalmente nas cenas da luta, a montagem frenética de Telma Schoonmaker é outros dos atrativos do filme. Ela é uma das parceiras frequentes de Scorcease, participando de vários filmes do diretor. É como se estivéssemos realmente dentro do ringue, levando e dando socos. Todos os movimentos são mostrados, a câmera de Scorcease não nos deixa perder uma troca de pés, estamos ao lado dos lutadores, sentimos o clima da platéia, suas vozes e gritos. A montagem cumpre o papel de conduzir a narrativa, fazendo o filme fluir como a personalidade de La Motta: alternando planos calmos, seguidos de violentos estouros de narrativas. Como pano de fundo a obra do compositor italiano, cuja o tema que mais se destaca é a excelente Cavalleria Rusticana: Intermezzo, a mesma que aparece na primeira cena.
La Motta esteve presente durante a maioria das filmagens, subiu nos ringues para ajudar De Niro e auxiliou em dúvidas e questões sobre o filme. Dizem que após ele ter visto o longa, ficou perplexo e resolveu perguntar para sua ex-mulher se era mesmo desse modo violento, possessivo e doentio como ele a tratava, ela teria dito “que era pior ainda”. Quem interpreta Vicky, a bonita esposa de La Motta é a estreante Cathy Motiarty's. Modelo, ela conseguiu o papel por meio de testes. Como atriz foi regular, cumpriu seu papel, que era mais aparecer, ser um objeto que o lutador ostentava, do que necessariamente encenar. Não é que não seja uma boa atriz, o papel não era de bom grado para uma maior performance. Detalhe para a cena em que o marido a acerta no olho, uma tomada tão crua e verdadeira, que o espectador se sente mal.
Touro Indomável veio para revitalizar a carreira de Scorcease, depois de seu reconhecimento por Taxi Driver o diretor oscilou na qualidade de seus filmes e se encontrou com a filmagem da vida de um boxeador que não sabia lidar com os problemas de sua vida pessoal e profissional. Um filme que merece ser visto, ou melhor: apreciado. Tanto pelo modo cruel e conciso como foi filmado, por meio de um preto e banco primoroso, quase que uma pintura, como pela velocidade e violência de sua montagem. E junto a isso a força de um Robert De Niro no mais elevado nível de atuação, juntamente a Scorcease conduzindo como uma verdadeira ópera todos esses elementos. Certamente não poderia ser criado uma obra fraca, Touro Indomável concorreu a inúmeros prêmios e até hoje entra na lista de melhores filmes de todos os tempos.


segunda-feira, 4 de agosto de 2008

LOVE- FOREVER CHANGES


Um dos álbuns mais interessantes que eu já ouvi é o “Forever Changes”, de 1967 da banda “Love”, de São Francisco. A banda é desconhecida aqui no nosso país, mas muito famosa nos Estados Unidos como a banda inspiradora do The Doors (ou como a maior concorrente deles) e a banda favorita de Syd Barret (Ex-Pink Floyd). Acabei chegando até este disco por um simples comentário presente no filme “The Doors” de Oliver Stone em que uma pessoa que está na fila de um show em São Francisco fala : “Já ouviu Love? É a banda do Arthur Lee. É muito boa também.” Fiquei curioso e resolvi baixar o disco mais famoso deles, “Forever Changes”. O que era apenas para matar uma simples curiosidade, acabou virando uma das minhas maiores paixões, e o trabalho desta banda passou a ser um dos mais apreciados por mim.

A banda surgiu em 1965 em São Francisco em uma época cheia de crítica social (especialmente com Bob Dylan) e psicodelismo. São Francisco era um celeiro de pequenas bandas que faziam tal tipo de música, mesclando ainda folk com blues, como Jefferson Airplane, Grateful Dead, Big Brother and The Holding Company e claro, The Doors. A cidade litorânea também favorecia a sensualidade das mulheres de biquíni e o uso de drogas, o que dava um tom diferenciado ao ritmo que se fazia em tal local. A Califórnia é um estado acometido por desertos, montanhas e litoral em sua estreita faixa, o que também gerou uma mescla muito grande de ritmos e culturas. Tudo isso favoreceu muito o desenvolvimento de uma musicalidade rica e singular.

As gravadoras resolveram fazer deste movimento politizado e artístico uma fonte de lucros e acabaram propondo contratos milionários à diversas bandas, entre elas o Love, que em 1966 acabou assinando seu compromisso e lançou o disco “Love” em 1966. Bom disco, com destaque para a música “My little red book”, mas longe da qualidade do terceiro disco da banda “Forever Changes”.

O álbum era para ser produzido por Neil Young, mas este acabou envolvendo-se em outro projeto, contribuindo apenas para a música “The Daily Planet”. O disco retrata o ano de 1967 e é o mais politizado de todos. Aliás, talvez o nome mais adequado para a banda neste momento seria “Peace”, pois a paz é o maior apelo da obra, além, é claro, da temática do amor que permeia toda a obra do grupo.

As críticas são geralmente sutis, sem muita agressividade e recheadas de lirismo. A primeira música do álbum, “Alone Again or”, é um pequeno ode ao amor não correspondido com um dos arranjos mais bonitos do rock’n roll. Já a segunda música “My House is not a motel” possui uma veia mais crítica o caos da cidade, com expressões do tipo: “água virando sangue” e “o verde ficando cinza”. Esta música é citada por Robert Plant, vocalista do Led Zeppelin como uma das dez melhores de todos os tempos.

A terceira música”Andmoreagain” fala sobre a confusão do amor carnal e do sentimental, em um arranjo mais simples, sem a grande complexidade vista na música anterior. É umas das músicas mais fracas do álbum. A música quatro “The Daily Planet” narra um cotidiano caótico como se fosse uma notícia lida de um jornal. Um arranjo mais rock´n roll puro, sem muitas quebras de ritmo, porém muito interessante e com uma das letras mais legais do álbum. A quinta música se chama “Old Man” e é uma reflexão sobre a velhice, com uma letra atraente e ritmo suave, realmente perfeito para refletir a mensagem nostálgica da música.

A música seguinte “The Red Telephone” é uma das mais psicodélicas do álbum e a que fala mais explicitamente sobre a guerra e suas contradições, mostradas por paradoxos na própria letra, que as vezes parece não se encaixar, mas que fazem todo um sentido dentro do contexto. "Maybe the People Woud be the Times or Betwen Clark and Hilldale" é outra música mais simples e sem muita reflexão, a exemplo de “Andmoreagain”. É uma música realmente mais para se ouvir e curtir do que para pensar. “Live and Let Live” é a oitava música e é a mais conhecida da banda. Novamente trata da guerra, mas de maneira mais branda do que “The Red Telephone”, mas possui um arranjo fantástico e uma letra muito boa. Uma das melhores do álbum.

A nona música chama-se “The Good Humour Man He Sees Everything Like This” e é a mais experimental de todas tanto em termos de arranjo, composição e letras. Muito legal para quem gosta do estilo, mas que com certeza traz diversos conceitos musicais legais para todos os que se interessam pela arte. “Bummer in the Summer” é uma música em que Lee canta em ritmo acelerado, quase como um rap anos 60 (se é que podemos chamar assim”. É uma das músicas mais “quentes” do disco, mas perde um pouco na sua letra. Por fim, a minha música predileta do álbum “You Set the Scene”. É a música mais longa do álbum e antecipa alguns conceitos que seriam usados posteriormente na Opera Rock. A letra é completamente solta e muito atraente musicalmente, apesar de não ter um sentido conotativo mais expressivo. O arranjo é o melhor do álbum, sem dúvida, com uma instrumentalização maravilhosa feita com a maestria de todos os seis integrantes da banda.

Enfim, Forever Changes é um álbum que segue sua linha sem grandes quebras, sendo um dos álbuns mais apreciados pelos artistas e também pela crítica ( A Rolling Stones o elegeu o 40° melhor álbum de todos os tempos). Recomendo este disco para todas as pessoas que apreciam um bom rock'n roll e que buscam um som diferente mas com a qualidade dos anos 60.



lbum que segue sua linha sem grandes quebras, sendo um dos ntes da banda.a Rock. musicais legais para todos os que se interessa

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Sangue Negro

Até quando – e até o quanto – a ganância pode enraizar-se na alma humana? Paul Thomas nos apresenta nesse filme - épico um homem que parece ter a absorvido e transformado-a na sua maior ferramenta para o sucesso e, também, para a própria perdição. A fé é a outra palavra do longa, que traz uma briga de ideologias que nunca deixou de ser atual.



Há alguns anos, o Oscar de melhor ator tem agraciado as interpretações de personagens reais, como Philip Seymour Hoffman por Capote em 2006 e Helen Mirren, atuando como Elizabeth II em A Rainha no ano passado. Não vejo grandes problemas nisso, mas valorizo por demais a criação original, uma vez que inventar um personagem, caracterizá-lo individualmente para estilizá-lo com o público – e para o público – é das tarefas mais árduas. E o roteiro de Paul Thomas , que também dirigiu o filme, valoriza justamente isso. O script foi livremente baseado no romance clássico “Oil” de Upton Sinclair e é basicamente um épico, isto é, conta a saga da vida de Daniel Plainview, que de um simples mineiro de prata transforma-se em um magnata do petróleo – ganhador da vida pelo própio esforço.


O dono do filme tem nome, e ele se chama Daniel Day Lewis..



O britânico, ganhador do Oscar de melhor ator em 1987 por Meu pé Esquerdo e agora em 2008 também (prêmio tremendamente justo), e indicado mais duas vezes por Em nome do pai (1993) e Gangues de Nova York (2002) é o principal expoente desse filme. Toda a carga emotiva e densa está de algum modo relacionado a suas emoções, traduzem os pensamentos, por meio da fotografia cinzenta, da música transtornante que harmozina-se perfeitamente com as suas atitudes. Day Lewis mostra toda a sua capacidade técnica, capaz de tirar um personagem do papel e transpô-lo fielmente e, o mais importante, cativamente, para o público. Tem o auxílio do ator Paul Dano (Show de Vizinha, Pequena Miss Sunshine), que interpreta o padre Eli Sunday, atuando como o contraponto de Plainview, em uma bela atuação de pároco demagogo que, conforme o petroleiro também quer constituir seu império.


Nós fazemos no escuro com sorrisos em nossos rostos...

O filme não se perde em nenhum momento, sendo leal, até ao fim, as convicções de Daniel Plainview. Todos os impulsos e vontades que guiam esse homem o levam a fama, ao sucesso, mas também a derrota. Uma vez que está sempre desconfiado em relação aos outros, como ele mesmo afirma na já antológica frase “ eu vejo o pior nas pessoas”, nunca será realmente feliz. Aliás, esse é um sentimento encontrado por ele somente, quando consegue ultrapassar um obstáculo para aumentar seu domínio petroleiro. A sua relação com o filho – na verdade adotado de um amigo que morrera no trabalho – também é totalmente dominadora ( ainda que ele nutra sentimentos reais, a ganância é mais forte ), tanto que quando ele perde a capacidade de escuta, é como se não fosse mais útil aos seus planos. Pois ele não pode ser mais influênciado por suas palavras. O primeiro diálogo do filme só aparece após 11 minutos e 33 segundos, talvez uma explícita referência a 2001 – Uma Odisséia no Espaço, só que aqui, observamos a o início da descoberta do petróleo.

Traçando paralelos...



Interessante é ver a luta de ideologias entre o pospector e o padre, a eterna rixa entre as diferentes formas de se observar a fé. Em uma cena já antológica, Daniel é exorcisado e batizado por Eli, que o manda repetir palavras, tais como nós podemos ver em qualquer igreja evangélica. Plainview mesmo abosolutamente contra, obdece pois necessitava do apóio da congregação para expandir seus negócios. Jà nas últimas cenas, quando o padre “visita” o petroleiro para tentar chantageá-lo, observamos a vingança de Daniel, fazendo a mesma coisa, em uma analogia era como se estivesse tirando toda a veradade suja do padre, prospectando a avassalodora ganância –assim como a dele.
A metáfora que permeia todo filme é o da sucção, o petroleiro além de ir atrás do “sangue negro” perdido embaixo das terras de seu país, acaba também encontrando as qualidades ruins das pessoas, e as próprias também. O filme já nasceu um novo clássico absoluto, tendo umas das melhorações atuações dessa primeira década.

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